UMA HISTÓRIA INDÍGENA DE DESCOLONIZAÇÃO: OS HERDEIROS DE COLOMBO E “UMA HISTÓRIA DE COIOTE SOBRE COLOMBO”

                                               

Rubelise da Cunha - UFSC

 

 

Já passados 500 anos da chegada do colonizador em nosso país, e de Cristóvão Colombo na América, é impossível negar a luta anti-colonial para destruir a idéia de descoberta de um novo país, ou de um novo continente, e denunciar a política exploratória do colonialismo e a continuação de sua prática capitalista. Além disso, áreas de estudo como o pós-colonial tem questionado os limites e possibilidades de resistência ao processo colonialista dentro da sociedade capitalista atual.

O encontro entre o colonizador e o nativo e suas conseqüências são abordados na literatura ameríndia contemporânea. Nos Estados Unidos e no Canadá, autores mestiços de descendência indígena, ou de sangue mesclado, como eles preferem ser chamados, recuperam sua tradição tribal para questionar as possibilidades de resistência pós-colonial. O romance The Heirs of Columbus (Os herdeiros de Colombo) (1991), do estadunidense Gerald Vizenor, e o conto “A Coyote Columbus Story” (Uma história de Coiote sobre Colombo) (1993), do canadense Thomas King, são exemplos disto. Em obras publicadas exatamente nos anos anterior e posterior aos quinhentos anos da chegada de Colombo na América, os autores oferecem possibilidades de rescrita da história oficial através da figura mítica tribal do trickster.        

Apesar de ambos os autores utilizarem o humor e recuperarem a cultura tribal do trickster, Vizenor e King propõem estratégias diferentes de resistência pós-colonial. Enquanto em Os herdeiros de Colombo Vizenor celebra a desconstrução, a paródia e o jogo de linguagem como as melhores formas para resistir-se ao processo colonialista, em “Uma história de Coiote sobre Colombo”, King afirma a necessidade de construir-se histórias alternativas, que recuperem o momento anterior à chegada do colonizador, e não o jogo com a história oficial, pois a história e o tempo não são processos reversíveis como o jogo.

O trickster possui um caráter ambíguo e instável. Ele é humano e animal, bondoso mas amoral, irresponsável e brincalhão, podendo transformar-se conforme seus objetivos. Como seu próprio nome indica em inglês, ele prega peças, faz trapaças e brincadeiras, mas nem sempre sai ileso, podendo ser vítima de suas próprias armadilhas. Como pode ser criador e destruidor, herói e anti-herói, ele existe fora das oposições binárias de bem/mal, sagrado/profano. Por esta razão, muitos críticos têm afirmado sua compatibilidade com os conceitos pós-estruturalistas de desconstrução e jogo de palavras. De acordo com Kerstin Schmidt (1995), o trickster imagina o significado e portanto libera a palavra de um significado fixo. Sendo assim, ele seria a própria encarnação da noção pós-estruturalista de jogo.

Para Vizenor, o trickster resiste através de suas transgressões e do seu jogo desconstrucionista. Em Os herdeiros de Colombo, o autor ironicamente celebra o sangue mesclado, ou mestiço, como a raça privilegiada, e propõe a formação de uma sociedade onde o humor dite as regras e os tricksters curem e salvem as pessoas da cultura de morte instaurada pelo Velho Mundo, ou seja, pela colonização. Os tricksters descendentes de Colombo são figuras ambíguas, humanos que possuem uma força xamânica, sensitiva, e adquirem formas animais, como de panteras e ursos. Stone Columbus, que age como uma reencarnação de Colombo, é protagonista da história e lidera o grupo que estabelecerá a nova sociedade pós-tribal.

Os herdeiros parodiam várias passagens dos Diários de Colombo, subvertem o significado da viagem do navegador à América e afirmam ser seus descendentes, por isso exigem seus direitos. Enquanto a história oficial reconhece Colombo como descobridor do continente americano, no romance de Vizenor, Colombo é um mestiço de descendência Maia e judaica que realiza uma viagem de retorno à América em busca de suas origens tribais. Ao relacionar-se com a trickster Samana, Colombo tem uma filha, através da qual inicia sua descendência mestiça e tribal.

O humor e a paródia são forças que desconstróem não só a história da formação da América enquanto continente, mas também dos Estados Unidos da América e de seus valores. Já que a sociedade capitalista transformou os restos mortais de Colombo em objetos de consumo, peças valiosas de um museu em Nova York, os herdeiros resolvem resgatá-los para serem enterrados na nova nação que será fundada. Doric Michéd, que é membro da associação responsável pelo museu, representa a força capitalista que quer devorar a cultura tribal, por isso é associado à figura do windigoo, o terrível canibal.

Os tricksters vencem pelo jogo de palavras e pela imaginação, e as ações da narrativa culminam com a fundação da sociedade mestiça tribal em Point Assinika, na fronteira entre Estados Unidos e Canadá. Esta posição de fronteira, fora e dentro, tão própria da paródia, é fundamental nesta obra de Vizenor, que procura desestabilizar qualquer certeza absoluta.

A chegada de Stone Columbus e os demais tricksters em Point Assinika parodia a chegada de Colombo na América descrita em seus diários, e acontece exatamente no dia em que a América completa seus quinhentos anos. Desta forma, rescreve-se a formação da sociedade americana, cujo objetivo agora seria curar, perpetuar a cultura tribal e viver em comunidade, e não roubar as tradições indígenas e dizimar os povos. Point Assinika é proclamado pelos herdeiros como um estado sem prisões, passaportes, escolas públicas, taxas públicas, missionários e televisão.

A pesquisa genética desenvolvida em Point Assinika consegue isolar o código genético da sobrevivência tribal, e as terapias genéticas revertem mutações humanas, possibilitam ressurreições xamânicas e curam crianças feridas pela cultura de morte do capitalismo. Nesta nova sociedade, os herdeiros subvertem a noção de descendência étnica, tão pregada nos Estados Unidos, e possibilitam que todos aqueles que queiram curar e não roubar possam adquirir o código genético tribal e ter seu sangue mesclado. O objetivo é fazer o mundo tornar-se tribal e criar uma identidade universal mestiça, híbrida, contrária a idéias puristas.

O final do livro ainda reserva um último confronto com o windigoo, agora o próprio canibal indígena. No jogo dos mocassins, se ele descobrir o mocassim que contém a moeda, os herdeiros perdem e ele toma as crianças da nova nação para si. A estratégia dos tricksters é colocar, junto à moeda, uma erva mortal capaz de destruir o mundo, convencendo o windigoo que, ganhando o jogo, ele termina com tudo aquilo que tanto quer devorar.

Apesar de terminar com a vitória dos tricksters sobre o windigoo e as crianças curadas celebrando esta sociedade pós-tribal e pós-colonial, o final do livro gera questionamentos sobre a própria natureza do jogo. Ao convencer o windigoo a desistir de vencer, Stone Columbus reafirma a interdependência das duas forças que se opõem: “Até mesmo um demônio precisa dos humanos” (VIZENOR, p.182). Em outras palavras, o colonizador precisa do colonizado para manter o jogo exploratório do capitalismo e devorá-lo, como faz o canibal windigoo. Sendo assim, a vitória dos herdeiros tribais é transitória e instável, pois a qualquer momento o windigoo pode retornar. Esta dependência perpetua o jogo e não elimina as forças colonizadoras. A própria nação pós-colonial dos tricksters reafirma valores da sociedade estadunidense ao subvertê-los, pois esta é a natureza dupla da paródia: para subverter algo é preciso primeiro reafirmar a sua existência.

O problema da afirmação e dependência das duas forças opostas no jogo é expandido por King no conto “Uma história de Coiote sobre Colombo”. King está consciente de que para jogar é preciso afirmar a necessidade dos dois participantes, e que o centro do momento pode desconstruir-se, tornando-se margem novamente. Enquanto Vizenor demonstra que o jogo pode ser lucrativo para o trickster, pois ele consegue ser mais esperto que o windigoo, King vai lembrar que esta é uma vitória momentânea, pois a brincadeira e o jogo não conseguem deter o processo capitalista, no qual o indígena é geralmente perdedor e do qual ele não pode fugir.

Em “Uma história de Coiote sobre Colombo”, o narrador adverte a trickster Coiote, que se prepara para a festa dos quinhentos anos da América, dizendo que Colombo não descobriu a América e os índios, pois tudo foi culpa da Velha Coiote. Na versão do narrador, a Velha Coiote criou Colombo porque os índios não queriam mais jogar com ela, já que ela ditava as regras e sempre ganhava. No entanto, Colombo e seu grupo não chegam na América para brincadeiras, e acabam sendo mais espertos, roubando todos os índios para vendê-los na Espanha. Mesmo assim, em sua história, alguns pássaros aparecem para brincar com a Velha Coiote. A Coiote é tão ingênua quanto sua ancestral, e acha que a história teve um final feliz, pois Colombo ficou rico e a Velha Coiote continuou jogando o seu jogo. No final, enquanto o narrador insiste que Colombo não achou a América e os índios porque eles nunca estiveram perdidos, a Coiote vai alegre à festa dos quinhentos anos.

A ingênua Coiote não consegue entender que sua ancestral apenas reafirmou a colonização ao criar Colombo, algo que ela própria está fazendo ao acreditar na descoberta e celebrar os quinhentos anos. Na história do narrador, a Velha Coiote desempenha o papel do colonizador ao ser considerada criadora de Colombo, mantendo a lógica colonizador/colonizado, opressor/oprimido. Mais do que isto, ela é tão opressora quanto o colonizador em sua ética, pois dita as regras do jogo aos índios e quer apenas vencer.

A momentânea inversão de papéis entre Colombo e a Velha Coiote não é capaz de conter a dominação histórica do capitalismo. Os índios se negam a ser explorados pela Coiote Colombo, a coiote imperialista, para cair na armadilha de outros valores capitalistas, já que resolvem tirar férias, ir ao cinema ou ao shopping, e acabam sendo vendidos na Espanha devido aos interesses econômicos de Colombo. A mistura de passado e presente, tecnologia e tempos primitivos, demonstra que a colonização não é algo do passado, da época dos navegadores, ela está presente em nossa sociedade atual através do desenvolvimento do capitalismo. Peter Hulme, em Colonial Encounters (1986), afirma que as relações estabelecidas na época colonial são perpetuadas em nosso neo-colonialismo, nas relações capitalistas da sociedade globalizada, na qual a expansão territorial é substituída pela expansão do mercado consumidor.

Apesar de negar o trickster como força de resistência à colonização, King o utiliza para expor a atitude ingênua que podemos assumir quando acreditamos já não fazer mais parte do jogo colonialista. Se o narrador não obtém sucesso em descolonizar a Coiote, ele consegue ao menos conscientizar o leitor do jogo capitalista na sociedade pós-colonial, descolonizando sua mente.

Concluindo, os narradores das duas narrativas desempenham relações diferentes com o trickster, figura diretamenterelacionada à noção de jogo e brincadeira, e à desestabilização de estruturas. Em Os herdeiros de Colombo, o narrador aponta como solução uma sociedade organizada por tricksters, capaz de subverter e parodiar os valores da sociedade estadunidense. O narrador de “Uma história de Coiote sobre Colombo”, por outro lado, repreende a descuidada Coiote para que ela não desestruture a história e termine novamente colonizada. Mas apesar destas diferentes posturas em relação ao trickster, tanto Vizenor quanto King apontam para um questionamento da história oficial, reconhecendo a necessidade de uma história de descolonização da qual o indígena não seja mero objeto exótico de conquista.

O interesse por estas duas obras no Brasil neste ano não é mero acaso, já que também completa-se quinhentos anos da colonização de nosso país. Apesar de termos visto protestos por parte dos índios para que fizéssemos uma revisão desta história de expansão colonial, muitos brasileiros, impulsionados pela mídia, imitaram a ingênua Coiote e celebraram a grandeza de serem barbaramente civilizados. No entanto, a leitura dos dois autores faz-nos refletir sobre o preço a ser pago por sermos herdeiros da civilização, herdeiros da colonização capitalista.

Em suas obras, Vizenor e King demonstram que a história oficial e o capitalismo continuam nos colonizando, e como o narrador de “Uma história de Coite sobre Colombo” nos adverte, não podemos celebrar nossa história e seus heróis sem questionar as forças que os levaram a ser considerados como tais. Precisamos ter cuidado com o que pensamos, pois a história e o tempo não são reversíveis, e como King afirma em seu conto, “uma vez que você pensa coisas como estas, você não pode voltar atrás” (p.126).

 

 

Referências Bibliográficas:

 

HULME, Peter. Colonial Encounters: Europe and the Native Caribbean 1492-1797. London and New York: Methuen, 1986.

KING, Thomas. “A Coyote Columbus Story”. In: One Good Story, That One. Toronto: Harper Collins, 1993. 121-127.

SCHMIDT, Kerstin. “Subverting the Dominant Paradigm: Gerald Vizenor’s Trickster Discourse”. In Sail 7.1 Spring 1995: 65-76.

VIZENOR, Gerald. The Heirs of Columbus. Hanover and London: Wesleyan University Press, 1991.